Artigo: A república dos herdeiros - Celso Vieira Jr – advogado e empresário
O Brasil acabou de eleger quatro Bolsonaros para o Congresso e classificou um quinto para o segundo turno presidencial. O patriarca, condenado por tentativa de golpe, cumpre pena atrás das grades. Não importou: a família votou por ele. Flávio, o filho mais velho, vai ao segundo turno de 25 de outubro com 56,1 milhões de votos, 47% dos válidos, à frente do presidente da República. Michelle, ex-primeira-dama, elegeu-se senadora com 938 mil votos. Carlos, vereador no Rio, mudou o domicílio para Santa Catarina como quem abre filial e saiu Senador. Jair Renan e Renato completaram a safra na Câmara. A família que fez de "casta" seu grito de guerra entregou, em uma eleição, o retrato mais completo de dinastia política da história recente.

Vi os Sarney, os Magalhães, o nepotismo sobreviver ao mensalão e à lava-jato. Nada disso me surpreende. O que surpreende é a desfaçatez: a casta nem se disfarça mais.
Max Weber separava quem vive da política de quem vive para a política. O Brasil fundiu os dois e criou um terceiro caso: quem vive da política dos outros. O mandato virou patrimônio hereditário, transmitido como sítio ou marca registrada. Michelle fez carreira dentro da casta: secretária parlamentar da Câmara, primeira-dama, Senadora. Há escada de cargos, com estágio, efetivação e plano de sucessão.
Nenhuma dinastia sobrevive sem patrimônio, e o da casta é pago pelo contribuinte. Em 2026, o fundo eleitoral distribui R$ 4,9 bilhões a 30 partidos; só o PL fica com R$ 881,7 milhões. Some o fundo partidário, mais R$ 1 bilhão, e as emendas parlamentares, R$ 61,4 bilhões: mais de R$ 67 bilhões circulando pelas mãos de quem precisa de sobrenome competitivo a cada quatro anos. É esse subsídio que transforma política em profissão: paga salário, custeia estrutura, financia campanha e elimina o custo de entrada de quem não tem nome nem herdeiro.
Os números denunciavam o desenho antes das urnas. Em 2011, 48% dos deputados federais tinham parentes na política. Em 2026, foram 145 registros de parentesco entre os eleitos e seis núcleos familiares com quatro ou mais candidatos ligados a congressistas: os Bolsonaro, com oito nomes; Macedo/Soares/Crivella, sete; Barbalho e os herdeiros de Arraes, cinco; Calheiros e a família Maranhãozinho, quatro. Trinta e três candidaturas de meia dúzia de sobrenomes.
A galeria não para nos Bolsonaro. Arthur Lira elegeu-se senador enquanto o filho, de 20 anos, estreava Deputado. No Pará, Helder Barbalho chega ao Senado com o pai inscrito como suplente: o pai, literalmente, na reserva do mandato do filho. No Maranhão, Josimar Maranhãozinho nem disputou e elegeu quatro parentes. Marina JHC será senadora no mandato em que o marido governa Alagoas. No Amapá, a mulher senadora, o marido governador. A esquerda contribui: Natália Boulos, mulher de Guilherme Boulos; Pedro Rousseff, sobrinho-neto de Dilma, eleito aos 26. A casta não tem partido, tem sobrenome. E tem memória: os Andrada ocupam cadeiras no Congresso há 190 anos.
O mecanismo é simples e obsceno. O sobrenome vale voto; o dinheiro público paga a estrutura que converte nome em candidatura; o sistema proporcional transforma cada mandato em ativo transferível, passado ao herdeiro quando o titular aposenta, sobe de cargo ou vai para a cadeia. O Estado deixa de ser público e vira extensão do quintal: o Senado é a sede, a Câmara a filial, a assembleia o depósito.
Dirão que dinastia existe em toda democracia: Kennedy, Gandhi, Benn. Verdade. A diferença está em quem paga a festa. Lá, o dinheiro da família financia a campanha; aqui, o dinheiro do contribuinte financia a família. O brasileiro trabalha para custear a própria exclusão da representação.
O que quebra isso? O fim do fundo eleitoral, prestação de contas real, qualquer regra que encareça a herança. Nada sairá do Congresso atual, porque o Congresso atual é o produto.
Celso Vieira Jr – advogado e empresário











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