“..., mas tinha comorbidades!” - artigo prof.Edilson Borghi



“..., mas tinha comorbidades!”


Edilson Borghi

Em tempos de pandemia provocada pela disseminação do novo coronavírus, temos ouvido, muito frequentemente, o vocábulo “comorbidade” – especialmente no plural. Arrisco-me a dizer que a imensa maioria das pessoas que, como eu, não estão ligadas à área médica, desconheciam essa palavra que passou a fazer parte, repentinamente, dos noticiários nos diversos meios de comunicação, e por consequência, de nosso dia a dia. Dentro do contexto onde aparece, facilmente compreendemos seu sentido, referindo-se à existência de duas ou mais doenças em simultâneo na mesma pessoa, tendo como característica a possibilidade de as patologias se potencializarem mutuamente, ou seja, uma provocando o agravamento da outra e vice-versa, conforme a definição disponível em https://www.significados.com.br/comorbidade.

A adoção de palavras novas ou pouco comuns não é um fato raro, visto que as línguas são flexíveis e adaptam-se aos contextos à medida que novos eventos surgem. Infelizmente, a palavra comorbidades é, por si só, um termo que carrega uma ideia negativa, já que refere-se à doenças. Além disso, ao considerarmos o momento em que se difundiu, ou seja, a crescente evolução da COVID-19 que tem levado tantas dores e saudades a uma imensidão de lares, fica claramente evidenciada sua carga de negatividade.

Contudo, tenho observado – com certa inquietação – como a palavra comorbidades tem sido usada, inúmeras vezes, como uma forma até mesmo inconsciente de amenizar o estrago causado pela COVID-19. Diariamente, é possível ter contato com a notícia da morte de alguém devido às complicações causadas pela nova doença, e a meu ver, infelizmente, acompanhada do complemento: “mas tinha comorbidades”.

Ao ouvir essas colocações, tenho a impressão de que estamos aceitando, quase que passivamente, a derrota que a presença e a ação de um novo vírus nos impõem, já que o vírus é poderoso e alguns – na verdade, muitos – têm comorbidades. Lembremo-nos de que antes da chegada do coronavírus, pessoas portadoras de uma ou mais doenças que vieram a morrer, haviam vivido por décadas e que, não fosse o contágio, poderiam ter vivido por muito mais tempo.

Não há como conceber a partida de corações queridos ou desconhecidos, vitimados pelos agravamentos que a COVID-19 promove, com nenhum grau de naturalidade, mesmo que inconsciente, devido a doenças preexistentes. Essa naturalidade é perigosa, visto que tende a levar ao afrouxamento dos cuidados que devemos ter para não nos infectarmos com o vírus, tenhamos ou não comorbidades, pois há sempre alguém com quem convivemos que as tem e que, portanto, faz parte do grupo de (maior) risco.

Em uma reflexão um pouco mais profunda, procuro imaginar como as inúmeras pessoas que têm comorbidades sentem-se ao ouvir o comentário descrito nas linhas anteriores, e chego a pensar que já são as grandes vencedoras desta batalha, pois procuram manter a força e a serenidade para seguir em frente, confiantes, vivendo cada novo dia cuidadosa e esperançosamente, em que pese toda a pressão que o momento e tais falas, desprovidas de cuidado, colocam sobre elas.

As pessoas com quem compartilho meu tempo e ideias sabem que não acredito em coincidências. Todavia, creio verdadeiramente que jamais podemos dispensar a prudência! Assim, façamos a nossa parte. Nossa cidade tem contabilizado, diariamente, mais e mais casos positivos da doença, e cabe principalmente a nós procurar evitar sua disseminação. Estejamos alertas, seguindo os cuidados vastamente divulgados, na certeza de que a guerra contra o coronavírus pode estar distante de ser vencida. Entretanto, não está perdida, apesar das comorbidades!


Edilson Borghi

Professor de Língua Inglesa

COC Jales

Speed Up Idiomas

CEIA Palmeira d’Oeste

edilsonborghi@hotmail.com






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