Construtora da COHAB Honório Amadeu diz que pagou 5% para “desentrave político”

Porcentagem teria sido paga sobre compras de material de construção e com o objetivo de “desentravar assuntos políticos”


Em ofício protocolado na Prefeitura de Jales no último dia 16 de julho, a construtora Tecnicon Engenharia e Construção LTDA disse que foi obrigada a pagar para garantir a celeridade das medições e dos pagamentos pelas obras realizadas no Conjunto Habitacional Honório Amadeu (Jales L) depois que o prefeito Flávio Prandi Franco, o Flá, assumiu a administração municipal, em 2017. O percentual, segundo a empresa, era pago para “desentrave de assuntos políticos” e teria sido pago para o ex-vereador Rivail Rodrigues Júnior, o Júnior Rodrigues, que também assinava os recibos de compra de material de construção em nome da construtora.


Página 6 do ofício da Tecnicon

Segundo a empresa, a partir do início do mandato de Flávio Prandi Franco. os cheques dos pagamentos feitos pela CDHU passaram a ser depositados na conta de Júnior Rodrigues. Somente depois que ele subtraía gastos com material de construção, mais 5% de “comissão”, é que o restante era entregue à construtora.

As informações fazem parte de mais um ofício protocolado pela construtora em resposta a um pedido da prefeitura para que a empresa faça reparos nas casas do conjunto. O jornal A Tribuna apurou que os donos da empresa foram convidados para participar de uma reunião na prefeitura no dia 10 de julho e que foram notificados novamente pela prefeitura a efetuar reparos nas casas. No dia 16, um dos sócios, Antônio Marcos Miranda, protocolou a resposta, relatando todo o processo. Pela primeira, vez, Miranda falou sobre pagamento de comissão.

Rivail Rodrigues Júnior tem laços antigos de amizade com o prefeito Flá. É suplente de vereador pelo PSB, partido que fez parte da coligação que apoiou a candidatura de Flávio Prandi Franco (DEM) em 2016.

Segundo o documento, a Prefeitura de Jales atrasava sistematicamente os pagamentos pelos serviços realizados. O contrato previa pagamento no prazo de 30 dias após as medições, mas, em média, os pagamentos eram feitos com 60 dias.

A situação mudou no início da atual gestão, quando o prefeito Flávio Prandi Franco, o Flá, que tinha acabado de assumir o mandado, mostrou disposição de aumentar frequência das medições e manter os pagamentos em dia, o que de fato aconteceu durante aquele ano.

“E para o desentrave de assuntos políticos re

lacionados ao presente contrato público, a empresa teve que fazer um contrato de parceria com uma pessoa de nome Rivail Rodrigues Júnior, o Júnior Rodrigues (...) que passou a ser o responsável pela representação da empresa junto à Prefeitura de Jales, sendo certo que lhe foi concedida uma procuração com esta finalidade específica”, relata a empresa.

Ainda segundo o relato, a função de Júnior Rodrigues era basicamente garantir a celeridade das medições e dos pagamentos pelas obras realizadas, recebendo uma porcentagem mensal de 5%. O material também deveria ser adquirido na sua própria empresa de Júnior, que teria se preparado para tanto.

Mensalmente, assim que os cheques para pagamento da empresa eram expedidos pela Prefeitura de Jales, eram postos imediatamente para desconto na conta de Júnior Rodrigues, que acabava por repassar aos representantes da empresa os valores liquidados após o desconto da sua comissão (5%) e daquilo que seria o valor dos materiais”. Tecnicon Engenharia e Construções LTDA

Ainda assim, segundo o relato da empresa, nove dias antes da entrega das chaves e quando a obra já estava concluída, o suplente de vereador teria feito uma compra de materiais de construção em uma conhecida loja da cidade, sem autorização dos empresários. A compra gerou uma divida que não foi saldada até hoje e acarretou no bloqueio do último repasse devido pela prefeitura à empresa.


Júnior Rodrigues diz que era avalista da empresa

O empresário e suplente de vereador, Júnior Rodrigues, negou que tenha sido indicado pelo prefeito Flá e que tenha atuado como intermediário facilitador da liberação dos repasses. Mas reconheceu que recebia uma comissão de 5% sobre os repasses. Disse, contudo, que o percentual tinha outra finalidade. “Falar, até papagaio fala. Eles falaram coisa que não devem”, rebateu.

Júnior admitiu até que tinha uma procuração em nome da empresa e que recebia comissão da construtora sobre os valores repassados pela CDHU através da Prefeitura de Jales, mas disse que atuava como avalista dos empresários porque eles não tinham crédito na praça para adquirir o material de construção usado nas obras. “As medições demoravam e eles não conseguiam comprar com 90 dias, então eu fui na loja de materiais de construção e pedi que vendessem com prazo para a construtora e assim foi feito. Por esse serviço, eu recebia 5%”, disse.

Júnior garantiu que quem recebia os cheques no caixa da prefeitura eram os empresários, mas admitiu que os cheques eram compensados na sua conta bancária. “Eu tinha procuração deles, mas não para receber. Eram eles que recebiam, depois depositavam na minha conta. Aí, eu descontava tudo que eu tinha comprado no meu nome e o que sobrava eu repassava para eles. A empresa comprava no meu nome porque eles não tinham nome (crédito). Só por isso. Em lugar nenhum a prefeitura tem coragem de pagar para uma pessoa um cheque empenhado para outra pessoa”.

Nota fiscal em nome da Tecnicon, mas assinada por Júnior Rodrigues

Júnior Rodrigues, que também é empresário do ramo de serralheria, negou que tenha atuado como emissário do prefeito Flá e contou que começou a intermediar compras da construtora a partir do fornecimento de ferragens para a construção dos muros de arrimo para os conjuntos habitacionais erguidos pela empresa. “O Miranda é muito desinformado e foi muito maldoso. Se ele não lembra, eu fui um dos maiores fornecedores de ferragens dele e através do ‘choreiro’ dele sobre os atrasos nas medições, eu segurava 90 dias para ele me pagar e arrumei mais fornecedores para ele que fizesse isso”, contou.

“Eu emprestei o meu nome aqui em Jales em Mirassol, em Santa Fé do Sul, Cordeirópolis e Dirce Reis. Na verdade eu fiz um favor porque o antigo avalista cobrava 10% eu passei a cobrar 5%. Isso foi acordado entre eu, o Miranda e o Del Pino [proprietários da construtora] porque o antigo cobrava 10% eu falei, vou fazer por 5%”.

Ainda segundo ele, um dos motivos que o levaram a cobrar um percentual bem abaixo do que o que a construtora pagava antes é que as famílias Rodrigues e Miranda possuem relações de amizade há mais de 60 anos. “Por isso eu resolvi ajudar”.

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